jueves, 22 de julio de 2010

Están empezando a ladrar...


Magabeira Unger se torna agora guru da oposição argentina
(Nota de Valor Económico)

Sem papel de destaque nas eleições brasileiras, apesar de estar filiado ao PMDB e engajado na campanha presidencial de Dilma Rousseff, o ex-ministro Roberto Mangabeira Unger tornou-se uma espécie de guru da oposição - mas na Argentina.

Mangabeira conseguiu a façanha de transitar com liberdade em todos os espectros ideológicos da tradicionalmente conflituosa política argentina, do partido de centro-direita PRO à esquerdista Coalizão Cívica. Ele aconselha de peronistas rompidos com o governo Kirchner, como o ex-presidente Eduardo Duhalde, que pretende voltar à Casa Rosada nas eleições de outubro de 2011, até o senador Ernesto Sanz, presidente da União Cívica Radical (UCR), o principal partido de oposição.

Uma demonstração da influência de Mangabeira pôde ser notada no fim do ano passado: Duhalde, Sanz e outros cinco integrantes da elite política argentinaforam para Harvard, às próprias custas, encontrar-se com ele e discutir pessoalmente suas ideias. "Temos nos visto, mais ou menos, a cada dois meses", relatou ao Valor o presidente da Comissão de Finanças da Câmara, Alfonso Prat-Gay, ex-presidente do Banco Central e hoje deputado pela Coalizão Cívica. "Ele é um dos melhores professores de uma das mais prestigiadas universidades do mundo. Não só nos ajuda a encontrar consensos, como também a organizar o dissenso", elogiou.

Quando esteve à frente da Secretaria de Assuntos Estratégicos, entre 2007 e 2009, Mangabeira visitou ministros da presidente Cristina Kirchner e propôs uma série de iniciativas conjuntas. Nenhuma delas prosperou.

Saindo do governo Lula, intensificaram-se os contatos com a oposição. Nos últimos dez meses, Mangabeira esteve pelo menos quatro vezes em Buenos Airese no interior da Argentina para reunir-se com lideranças partidárias e dar palestras. Exerce fascínio na mídia local, que aproveita essas oportunidades para publicar entrevistas de página inteira com o professor de Harvard. Nas apresentações, há sempre uma menção: "um dos professores preferidos" de Barack Obama na universidade.

Os dois postulantes da UCR à Casa Rosada têm mantido diálogo frequente com Mangabeira: o vice-presidente Julio Cobos e o deputado Ricardo Alfonsín (filho do ex-presidente Raúl Alfonsín), o político com a imagem mais positiva hoje no país, segundo pesquisas recentes.

Mangabeira também teve reuniões com o prefeito de Buenos Aires, Mauricio Macri, do partido de centro-direita PRO. Com todos os interlocutores, apregoa um "novo modelo de desenvolvimento" e critica o "keynesianismo bastardo" com que governos de países ricos e emergentes reagiram à recessão mundial.

Entusiasmados com as ideias de Mangabeira, uma turma de jovens intelectuais organizou um movimento - chamado Grupo Juramento - para difundir sua obra na Argentina. Eles traduzem livros, pleiteiam a abertura de cátedras em universidades para debater o pensamento de Mangabeira e fazem esforços para a concessão de títulos honoris causa ao brasileiro.

Mas há lideranças políticas que se interessaram bem menos pelos ensinamentos do filósofo e professor de Direito. O diretor de cinema Pino Solanas, 74, é deputado do movimento ultraesquerdista Proyecto Sur, que defende a estatização dos setores de petróleo e mineração. Foi o segundo parlamentar mais votado na cidade de Buenos Aires, em 2009, e analistas consideram sua candidatura nas próximas eleições presidenciais como crucial para os planos de Cristina e de Néstor Kirchner.

Muitos argumentam que Solanas dificilmente romperia a barreira de 10% dos votos, mas compete pelo mesmo eleitorado que os Kirchner. Com esse papel-chave, o deputado convidou Mangabeira para jantar em sua casa, mas o considerou "meio soberbo". "Ele falou sem parar durante duas horas", disse Solanas, que confessou ter admiração por Mangabeira, mas reconheceu não ter entendido todas as ideias expostas por ele.

Quem também não guarda as melhores lembranças de Mangabeira é o ex-ministro Domingo Cavallo, que deu um curso de seis meses em Harvard, com o brasileiro, sobre o Consenso de Washington. As diferenças acadêmicas foram muito fortes.

Cavallo sugere uma explicação para o fascínio da oposição argentina com Mangabeira. "Como ele critica o neoliberalismo e a ortodoxia econômica, encanta políticos que não gostam de ouvir falar em disciplina fiscal, disciplina monetária e competitividade da economia", disse o ex-ministro ao Valor. "Mas, quando deparam com questões práticas, ninguém consegue se guiar pelo pensamento de Mangabeira."

Cavallo continua: "Ele impressiona pelo uso de uma terminologia pouco habitual. Está em uma busca filosófica muito louvável. Só que, quando você lê os textos dele e ouve suas palestras, se dá conta de que ele usa os mesmos conjuntos de frases e lhe custa oferecer exemplos práticos. Pergunte, por exemplo, se ele acha que a Grécia deve sair da eurozona".

"Minha Tarefa é estimular ideias"

O ex-ministro Roberto Mangabeira Unger afirma que suas idas à Argentina têm como objetivo estimular discussões para construir "um novo modelo de desenvolvimento", que extrapola as fronteiras nacionais. Por isso, ele se diz à vontade nos contatos com a elite política argentina.
Enquanto esteve no governo Lula, entre 2007 e 2009, manteve diálogo com os principais assessores da presidente Cristina Kirchner. Depois, passou a conversar só com a oposição. "Não estou fechado a esses contatos, pelo contrário. Mas os ministros de Estado estão ocupados com outras questões", afirma. Na semana passada, Mangabeira falou ao Valor por telefone, dos EUA.

Valor: Como tem sido a sua atuação na Argentina?
Roberto Mangabeira Unger: A discussão doutrinária faz parte do meu trabalho, não só no Brasil, mas mundo afora. Considero importante e legítimo participar do debate programático em todo o mundo, e a América do Sul é um caso especial. Meus interlocutores argentinos têm sido extremamente generosos. O próprio fato de eu ser um estrangeiro na Argentina, sem fazer parte de nenhum partido e sem pretensões a nenhuma fatia de poder, facilita essa ação. Não sou uma ameaça a ninguém, estou numa ação completamente desinteressada, com uma grande admiração pela Argentina e convicção sobre a convergência dos nossos destinos nacionais.

Valor: Vários de seus interlocutores são presidenciáveis nas eleições de 2011. Esse relacionamento pode avançar para uma participação efetiva nos programas de governo deles?
Mangabeira: O meu foco é o processo eleitoral no Brasil. Vou fazer tudo o que puder para ajudar a campanha de Dilma Rousseff e o meu partido, que é o PMDB. Na Argentina, estou numa posição diferente. A minha tarefa não é assessorar candidatos, mas provocar uma discussão de projeto nacional e sul-americano, estimular um movimento de ideias. A última ocasião em que tivemos algo semelhante na América do Sul foi com o desenvolvimentismo das décadas de 60 e 70, com Raúl Prebisch e Celso Furtado. Devo dizer que o movimento atual é mais amplo porque está focado não apenas em questões de política econômica, mas na reconstrução das instituições econômicas e políticas.

Valor: Que impressões o sr. tem da política argentina?
Mangabeira: É uma cultura política que tem a virtude de partidos fortes, mas o defeito de um sectarismo que ameaça envenenar a construção de um projeto nacional. A história argentina tem uma alternância entre políticas transformadoras anti-institucionais (dos peronistas) e políticas institucionais antitransformadoras (radicais).

Valor: O sr. fala muito de um novo modelo de desenvolvimento, e é com termos parecidos que o casal Kirchner classifica o modelo argentino atual. O sr. concorda?
Mangabeira: O meu foco não é crítica, é proposta. Mas tenho sido muito franco nas minhas discussões. Assim como nós, brasileiros, os argentinos têm que resistir às tentações de certos atalhos. Uma delas é a tradição justicialista de tributar o excedente econômico da agropecuária para dirigi-lo às classes urbanas. Isso é uma maneira de não enfrentar um problema mais profundo de reconstrução do poder econômico. Em segundo lugar, há o atalho político de apelar ao personalismo, em vez de reconstruir as instituições democráticas.

Valor: Como o sr. vê a paralisia que tomou conta do Mercosul?
Mangabeira: Falta ao Mercosul um projeto comum. A construção sul-americana não pode ser apenas comercial. Ela só se afirmará quando houver algo que transcenda as preocupações mercantis. A União Europeia repousa sobre dois grandes pressupostos: por fim às guerras europeias e ser um espaço neutro, uma forma diferente de organização da dos EUA. Ainda nos falta algo dessa dimensão. Aqui, o equivalente a isso é a construção comum de um novo modelo de desenvolvimento, calcado em democratização de oportunidades econômicas e educativas, aproveitando o fenômeno social mais importante das últimas décadas nos nossos países: o surgimento de uma segunda classe média empreendedora e o desejo da maioria pobre de seguir nessa vanguarda de emergentes. Essa novidade social representa a base para um novo projeto.