martes, 3 de enero de 2012

A religião dos derrotados



O cristianismo não é, como supôs Nietzsche, a religião dos ressentidos. Mais razão teve Unamuno ao defini-lo como a religião dos derrotados. Vitoriosos, compreendeu ele, são os que se adaptam ao mundo, aceitando como horizonte a circunstância que encontram. Derrotados, de início, são aqueles que exigem que o mundo se adapte a eles. Desses derrotados, derrotados porque inconformados, depende o avanço da humanidade.

Se há sinal de que a vida não é o que parece ser é a carreira do cristianismo. Não há mensagem que contradiga mais o bom senso mundano do que a mensagem cristã. Ela surge de acontecimentos enigmáticos e paradoxais.

Um jovem judeu de periferia começa a ensinar um caminho de salvação. Intransigente e mal cercado, preocupa as autoridades políticas e religiosas, que se acertam para matá-lo. As expectativas que acalentou se frustram. Seus seguidores o renegam. Depois, sua existência e suas palavras são entendidas como prenúncios de vida maior para todos. Acabam virando diretriz de uma civilização que inventa mil maneiras de descarecterizá-las para poder domá-las.

O cristianismo recolheu do judaísmo a idéia da transcendência radical de Deus sobre o mundo e da supremacia da personalidade humana, feita à imagem e semelhança de Deus, sobre o bem impessoal. Há mais em nós -- mais em cada indíviduo e mais na raça humana -- do que há em todas as sociedades e culturas. Elas são o finito. Nós, em comparação com elas, somos o infinito preso no finito. Temos de quebrar os ídolos -- inclusive as instituições estabelecidas e as idéias reinantes -- para poder respeitar as pessoas, o espírito inexaurível enjaulado dentro de cada um de nós. Temos de construir idéias e instituições mais compatíveis com a condição do espírito.

A reafirmação da transcendência convive no cristianismo, entretanto, com a idéia que está associada ao Natal. O espírito se encarnou no mundo porque o espírito é amor. Embora transcendentes sobre o mundo, somos carentes das outras pessoas.

O mundo, porém, não está preparado para a primazia do amor porque no mundo cada um de nós está crucificado, em separado, na cruz das limitações que nosso destino social e genético nos impôs. Temos, por isso, de mudar o mundo, começando por transformar nossa relação com ele. Para isso, precisamos romper a múmia de rotinas e rendições que se vai formando em torno de cada um de nós. Desproteger-nos para poder imaginar o possível e aceitar os outros é a essência da sabedoria e o rumo da divinização.

No ambiente de semi-crença e confusão em que habitualmente vivemos, as fórmulas e os rituais da religião convencional não exprimem adesão a esse ideário. Servem apenas como encantamento para espantar o medo da morte e para compensar a incontrolabilidade da vida.

Melhor faríamos se rejeitássemos essa falsa religião, camada da múmia que nos sufoca, e passássemos, apóstatas intranquilos, a ver o ensinamento de Cristo como a doutrina desestablizadora que ele é. Melhor se, desprovidos do encantamento, tivéssemos de enfrentar o contraste, que o cristianismo nos revelou, entre o espírito ilimitado e a situação constrangedora. A hora da nossa apostasia seria o momento da nossa conversão. Isso sim seria Natal.

Roberto Mangabeira Unger

martes, 18 de octubre de 2011

The Next Revolution in Legal Education

Daniel Vargas, la esperanza de Sudamérica, produjo este video:


martes, 9 de agosto de 2011

El amigo Caetano






Mangabeira deve ser ouvido porque ele destoa dos papos costumeiros
Minha amiga Heloisa Chaves me pergunta, brincando, se quero que os brasileiros se orientem pelas falas de Mangabeira no YouTube (http://bit.ly/robertounger ) se nem todos os brasileiros entendem inglês. Isso porque há uma série de vídeos sobre a crise econômica (além de outros, interessantíssimos, de temática religiosa e filosófica) dirigidas a um público global, quando não especificamente a estudantes americanos, todos em inglês. Mas os vídeos que recomendo aos brasileiros têm por título “Alternativa nacional”, e em todos Mangabeira fala português. Uma outra amiga, Suely, diz não entender o português do professor. Diferentemente de Heloisa, Suely não o faz (ao menos aparentemente) em tom de piada. Ela se queixa de que o sotaque dele a impede de compreender as palavras. Me pede que eu comente aqui as falas para que ela possa saber o que é que ele diz. Claro que eu não acreditei nela. Mangabeira tem um sotaque peculiar, mas fala pausado e com grande clareza.

Eu me lembro de ter um dia escrito aqui que seus erres retroflexos não se justificavam. Ouvindo essas palestras me dei conta de que, embora ele tenha aspectos fortes de pronúncia americana em sua fala, seus erres não são retroflexos (palavra que acho que aprendi com Heloisa, no tempo do blog Obra em Progresso, de feitura do CD “Zii e Zie”). Os erres de Mangabeira são linguodentais, nunca guturais ou aspirados, mas são tão límpidos quanto os de um cantor de ópera. Nada dos erres molhados e moles do inglês americano. Há mais estranhezas em algumas vogais (e outras consoantes, como o T ou o P) do que nos erres. Seja como for, o português de Mangabeira é excelente e claríssimo — e suas ideias, brilhantes.

Trata-se de brilho retórico com resquícios baianos mas sem dar a impressão de superfluidade. Mangabeira tem muito apreço pelo desenrolar da inteligência por entre as palavras. Mas não faz disso o fim último de seu discurso. A entrada direta na arte substancial dos assuntos de que trata é exigência primeira em suas manifestações. De resto, seu inglês tampouco é “normal”. Há uma estilização, uma empostação, que o distanciam do falar do americano comum. É um inglês totalmente americano, mas sem que se possa dizer de que parte dos Estados Unidos. É um inglês, mais do que da academia, do projeto pessoal único de Mangabeira. Em português ou em inglês, temos de enfrentar a peculiaridade desse pensador generoso, porém exigente — e nada preguiçoso.

Já começamos com o reconhecimento do papel importante que pode e deve desempenhar na História futura do Brasil a nova classe média, que veio de baixo e que muitas vezes se reúne em igrejas neopentecostais e desenvolve uma cultura de autoajuda. Sobre essa classe média Mangabeira vem falando há muito tempo, desde bem antes de ela se tornar tão conspicuamente numerosa. Podemos dizer que ele foi seu profeta. É esse tipo de coisa que sempre me atraiu no professor de Harvard. Ele percebe as possibilidades singulares do nosso país e busca pensar com coragem e lucidez sobre como fazer-nos realizá-las. Ele fala da grande vitalidade, “anárquica, quase cega”, do Brasil — e de nossa tragédia em não termos ainda achado os meios de encaminhá-la. Essa nova classe média consegue esboçar caminhos — e servir de guia e líder à multidão de emergentes que a seguirá. Mangabeira lembra que Getúlio Vargas promoveu uma revolução ao pôr o Estado a serviço das forças organizadas da sociedade brasileira no meio de século XX. E que agora a revolução seria o Estado pôr-se ao serviço da maioria que quer seguir a vanguarda representada por essa nova classe média.

Não vou parafrasear suas falas (sempre meio mal: é difícil, mesmo escrevendo, achar as palavras adequadas com tanta precisão quanto esse orador). Ou seja, vou ter que frustrar Suely e insistir em pedir que assistam aos vídeos. Posso, no máximo, chamar a atenção para trechos que possam servir de atrativo para curiosos. “ Precisamos construir um modelo de desenvolvimento baseado em ampliação de opor tunidades para aprender, para trabalhar e para produzir”;“A política industrial do Brasil consiste tradicionalmente em apoiar um pequeno número de grandes empresas sob o pretexto de transformá-las em campeãs mundiais. Enquanto isso, as pequenas e médias empresas, que geram a maioria esmagadora dos empregos, carecem de acesso a crédito e a tecnologia”. Tudo o que destoa da combinação de marxismo encolhido (que abandonou o ímpeto transformador e reteve o fatalismo histórico) com cópia das ideias econômicas neoliberais, combinação essa que é a língua franca da alta cultura brasileira, é rotulado de voluntarismo romântico — queixa-se Mangabeira. Eu, que uma vez fui chamado de arrogante por ter respondido “Sim” à pergunta “Você acha que o Brasil pode dar certo?” com a explicação de que isso é “Porque eu quero”, sou irresistivelmente atraído por esse suposto voluntarismo.

Tudo o que destoa me interessa. Mangabeira deve ser ouvido porque ele destoa dos papos costumeiros. Mas não só. Faz anos que me proponho a fazer propaganda das atividades teóricas e das propostas práticas de Roberto Mangabeira Unger. Nunca me arrependi. Vendo esses vídeos — mesmo em meio a todas as urgentes novidades do noticiário nacional e internacional — me senti mais uma vez no dever de convidar meus compatriotas a atentarem mais para quem tem tanto a dar e demonstra tanto desejo de fazê-lo.


Caetano Veloso

O Globo - 07/08/2011

martes, 2 de agosto de 2011

sábado, 9 de julio de 2011

La radicalización del experimentalismo democrático




"The existing social world, with its structure of stronger and weaker interests, will work to reproduce itself. It will find an ally in prestigious superstitions, such as the beliefs that the market order has a single natural and necessary institutional form or that the different countries of the world converge, by evolutionary decantation, to a single set of best practices and arrangements. This struggle for self-reproduction will limit the chances for experimental innovation in the development of new market organization and new comparative advantage. The present, acting through the logic of established interests and the tools of power at their disposal, will hold the future ransom.
There are, in the end, only two directions in which this dependence of the future on the present -- the path dependency of social experience -- can be weakened. One is to create a hard power that seeks to lift itself over the particular interests of society. The other is to radicalize democratic experimentalism in culture as well as in politics. The first direction hits against intractable limits. No such hard power can be sustained that fails to have real ties to the real interests of society or that forgets to subordinate its experiments in policy to its stake in self-preservation.
The second direction has no limits in principle. However, it has neither a self-evident institutional content nor a foreordained social constituency. Like the concept of a market economy, the idea of democracy lacks any natural and necessary institutional form. Moreover, the radicalization of democracy is feasible only if it is shown to offer a combination of powerful interests a way to achieve what the established order denies them. The content has to be supplied by a political imagination working with the institutional materials at hand. The constituency has to be produced together with the program."

RMU